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Bahia homenageia Milton Santos

Publicado em: 03/06/2011 00:00
Editoria: Diário Oficial

Professora da Universidade de São Paulo, Maria Adélia comparou a obra do baiano à de Karl Marx
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O saguão da Reitoria da Universidade Federal da Bahia ficou lotado ontem no lançamento de três livros sobre a vida e a obra do professor Milton Santos, um dos maiores cientistas brasileiros do século passado. A reitora Dora Leal Rosa falou do legado deixado por Milton Santos, "a cada dia mais presente nesse mundo de tantos excluídos". Para ela, a maior homenagem que se pode prestar ao ilustre mestre é estudá-lo e publicar seus livros, como fazem a universidade e o Legislativo da Bahia.
O deputado Marcelo Nilo, presidente da Assembleia Legislativa, foi representado na solenidade pelo professor Délio Pinheiro, assessor para assuntos de cultura, que traçou um breve perfil do programa editorial em execução no parlamento estadual – anunciando a edição de uma biografia de Milton Santos, escrita pelo jornalista Waldomiro Júnior para a coleção Gente da Bahia, que trará encartado o documentário produzido pelo Canal Assembleia, com lançamento previsto para setembro.

EMOÇÃO

Cerca de 400 pessoas participaram da cerimônia, que coincidiu com o encerramento do I Simpósio Nacional de Literatura e Arte. Diretores das diversas unidades da Ufba e de outras universidades públicas e privadas, professores, mestrandos, doutorandos, colaboradores, familiares, amigos e admiradores de Milton Santos. O evento teve alta carga emocional, pois foi lembrada a perseguição política que atingiu o professor Milton Santos no pós-64, quando foi preso e submetido a um exílio de 13 anos, só obtendo da Universidade Federal da Bahia a sua reintegração como docente 30 anos depois, no reitorado do professor Felipe Serpa.
Destaques a presença da irmã de Milton Santos, Yeda Maria Santos, e da neta do geógrafo, Nina Santos, que elogiou a iniciativa das duas instituições de reeditar obras do avô que "tratam de questões do passado, mas infelizmente tão presentes no mundo". Ela anunciou a criação de um site com informações, áudios e vídeos sobre Milton Santos que está sendo executado por seus familiares, conclamando a todos para visitarem o endereço,
www.miltonsantos.com.br, bem como solicitando contribuições para essa reconstrução da história.
Os livros editados pela Assembleia Legislativa agora lançados foram Marianne em Preto e Branco, que reuniu artigos escritos por Milton quando de sua primeira viagem à África e à Europa, publicados inicialmente no jornal A Tarde, entre 1957 e 1958, (a sua primeira edição foi em 1960) e Dez anos sem Milton Santos, uma coletânea de depoimentos escritos por 78 de seus colaboradores, ex-alunos e amigos que marca o transcurso do 10o aniversário do seu falecimento. O trabalho foi organizado de forma alfabética por autor pela professora Maria Auxiliadora da Silva, exceto num texto escrito por sua viúva, Marie Hèlene, e no discurso proferido pelo professor Bernard Kaysser, quando da entrega do título Doutor Honoris Causa da Universidade de Toulousse-le Mirail, França, a Milton Santos, traduzido do francês pela viúva do homenageado, que é francesa.

MARX

O outro livro, Geografia Literatura e Arte: Reflexões, foi publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia, Edufba, reunindo os trabalhos apresentados no simpósio do programa de pós-graduação em Geografia sobre a obra de Milton Santos. Presente ao simpósio e ao lançamento dos livros na Reitoria a autora do prefácio de Marianne em Preto e Branco, a professora doutora titular da Universidade de São Paulo (USP), Maria Adélia de Souza, comparou a obra do baiano à de Karl Marx. Para ela, o conceito de espaço geográfico de Milton Santos equivale ao conceito de modo de produção de Marx. E rejeitou rótulos para ele e sua obra.
Ela é atualmente a maior autoridade na obra de Milton Santos, que considera um sistema de ideias, "portanto, sinônimo de método", uma ferramenta poderosa para o terreno da academia planejar o futuro e desvendar as razões das desigualdades e da pobreza – pois outra globalização é possível. A professora Maria Adélia disse que teve o privilégio de conviver com Milton Santos, seu mentor intelectual, e lembrou que, cidadão do mundo, ele mantinha suas raízes em Salvador, a sua capital do mundo, pois Paris, Nova Iorque e outras cidades vinham em segundo plano para ele.



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