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Especialistas debatem na AL a matriz energética brasileira

Publicado em: 03/06/2011 00:00
Editoria: Diário Oficial

O evento foi promovido pela Comissão de Meio Ambiente, presidida por Adolfo Viana
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Não existe nenhum tipo de energia que seja 100% limpa. A constatação é do físico nuclear Luiz Pinguelli Rosa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos palestrantes do seminário “Matriz Energética Brasileira, Perspectivas Atuais – Precisa o Brasil de Energia Nuclear?”, realizado na Assembleia Legislativa da Bahia, na manhã de ontem.
Promovido pela Comissão de Meio Ambiente, Seca e Recursos Hídricos da AL, presidida pelo deputado Adolfo Viana (PSDB), o evento teve a presença de cientistas renomados: além do próprio Pinguelli Rosa, proferiram palestras o também físico nuclear Aquilino Senra Martinez, diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ; e o professor  Osvaldo Soliano Pereira, diretor do Centro Brasileiro de Energia e Mudanças Climáticas.
Em sua palestra, Pinguelli afirmou que o Brasil ainda pode usar o potencial hidrelétrico, mas ressalvou que é preciso medir os benefícios e os problemas dos modelos propostos para geração de energia. No que diz respeito ao investimento, acrescentou ele, uma usina hidrelétrica é mais barata do que uma usina nuclear.
Por isso, para ele, o Brasil deve continuar usando energia hidrelétrica desde que respeite as questões ambientais. “Eu acho que nós podemos usar o potencial hidrelétrico brasileiro com os devidos cuidados. Nós caímos numa falsa opção entre o faz tudo o que se pretende de hidrelétrica ou não se faz nada. E há muita coisa entre esses dois extremos. Mas as hidrelétricas são as matrizes energéticas mais baratas e, a meu ver, ainda as menos poluentes".
Sobre a energia nuclear, Pinguelli explicou que, apesar de os reatores nucleares não contribuírem para o efeito estufa substancialmente, a construção dos mesmos exige, por exemplo, cimento e ferro, materiais que dependem de combustíveis fósseis. “Mas na sua operação não tem queima de combustível fóssil, porém tem o problema da radioatividade”, explicou Pinguelli.
O físico nuclear falou também de outras fontes de energia, como o petróleo, e defendeu a ênfase cada vez maior no transporte público. “O mundo não comporta cada um com o seu automóvel. Se tivéssemos transporte público de qualidade, as pessoas deixariam os carros em casa, teríamos menos trânsito e, automaticamente, menos poluição”, afirmou ele.

IMPACTOS

Favorável à energia nuclear, o professor Aquilino Senra Martinez explicou que prevenção e preparação são medidas fundamentais para diminuir os impactos de um acidente. Segundo ele, as duas usinas nucleares em atividade no Brasil, Angra I e II, representam 3% da energia gerada no país e, acrescentou, o modelo energético deve ser ampliado para 5 ou 6% até 2030.
Para Martinez, as tecnologias disponíveis no mercado devem diminuir os riscos no futuro e, com isso, a energia nuclear será ampliada. “Certamente teremos disponibilidade de reatores mais seguros, econômicos e que produzam menor quantidade de lixo radioativo”.
O cientista argumenta que fontes alternativas como eólica e solar ainda não são suficientes para atender o crescimento da economia brasileira nos próximos anos. “Não se pode pôr em risco o desenvolvimento que está associado ao bem-estar da sociedade por falta de eletricidade”.
Crítico da energia nuclear, o professor Osvaldo Soliano Pereira tem opinião contrária à de Aquilino Senra Martinez. Ele acredita que o país pode diversificar sua matriz energética brasileira, sem necessariamente recorrer à energia nuclear. “Questiono a produção de energia nuclear no Brasil e, particularmente, na Bahia. O Brasil tem outras alternativas”, defendeu ele.
Para o professor da Unifacs, pensar a matriz brasileira de forma renovável é o grande desafio do Brasil até o ano de 2030. Osvaldo Soliano argumentou que é possível obter uma matriz energética no país não só livre da energia nuclear, mas também do carvão e óleo diesel dentro dos próximos 20 anos, desde que o Brasil saiba aproveitar sua vocação – “as hidrelétricas e a biomassa, talvez com uma complementação do gás natural”.
Para a realização do seminário “Matriz Energética Brasileira, Perspectivas Atuais – Precisa o Brasil de Energia Nuclear?”, líderes partidários da Assembleia fecharam um acordo transformando a sessão ordinária – que às quintas-feiras é matutina. A negociação foi promovida pelo presidente da Comissão de Meio Ambiente,  Adolfo Viana. A realização do evento contou com o apoio do presidente da Casa, deputado Marcelo Nilo (PDT) e a presença de ambientalistas, professores, representantes de movimentos sociais, além dos parlamentares.



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