A Assembleia Legislativa reuniu diversas autoridades de Estado, representantes de organismos não- governamentais e pessoas da comunidade para debater a situação do metrô em Salvador, em sessão especial proposta pelo deputado Álvaro Gomes (PCdoB). Mas o que se viu ontem foi uma preocupação maior em torno do desenvolvimento da cidade, sob o ponto de vista humano, incluindo a discussão da mobilidade urbana como um todo.
Álvaro disse, logo no início – e voltou a reafirmar ao final – que o objetivo da sessão foi "contribuir de alguma maneira para mitigar um dos mais graves problemas da nossa capital: a mobilidade urbana". Para trazer luz ao problema, ele convidou o secretário estadual para Assuntos da Copa, Ney Campello; o gestor municipal da Copa, Leonel Leal Neto; o presidente do Crea, Jonas Dantas; o presidente da Federação Nacional dos Metroviários (Fenametro), Wagner Farjado – que veio de São Paulo para o evento; o superintendente dos Desportos, Raimundo Nonato (Bobô); o presidente do Sindicato da Construção Civil, José Ribeiro; e o presidente do Conselho Baiano de Turismo, Sílvio Pessoa.
Quem não pode comparecer mandou representante, a exemplo do secretário estadual do Desenvolvimento Urbano, Cícero Monteiro, que foi representado por Jessé Motta Filho; e o procurador chefe do Ministério Público, Wellington Cesar Lima, que se fez presente na pessoa do promotor Cristiano Chaves. "Objetivamos reunir representantes das diversas esferas de governo, do setor privado e da sociedade civil organizada envolvidos na preparação da cidade com vista aos grandes eventos que batem à nossa porta, notadamente a Copa do Mundo de 2014", disse.
ATRASO
O parlamentar revelou preocupação com o atraso no cronograma das obras, podendo acarretar em medidas açodadas e consequentes transtornos e prejuízos aos cidadãos. "Sem dúvida, o gargalo de Salvador é a mobilidade urbana", definiu, lembrando que "deslocar-se em Salvador tornou-se muito difícil". Para ele, é urgente criar condições para retirar automóveis das ruas. "Segundo o Ipea, a capital registrou o segundo maior crescimento da frota entre as cinco maiores cidades do país, assumindo contornos de caos quando se sabe que Salvador é a única que não dispõe de metrô."
Álvaro disse que não acredita em qualquer outra solução para a cidade que não o metroviário. "A Copa é importante, mas são só 15 dias, precisamos projetar Salvador para o futuro", disse. A respeito das soluções que estão sendo apresentadas para o excesso de carros, ele disse "em alto e bom som", que é contra o pedágio urbano e que, se essa for a opção, levará o caso para a Justiça. "Não podemos onerar mais a população". O parlamentar lamentou ainda o ocaso da CPI do Metrô, da qual foi presidente, que não chegou à conclusão por não ter tido sua vigência alongada.
Na mesma linha de Álvaro, o deputado Tadeu Fernandes (PSB) procurou demonstrar a insustentabilidade do tráfego de Salvador, que teve um aumento de 80% na frota ao longo dos últimos dez anos. "No mesmo período em que o minimetrô não saiu do lugar, Salvador ganhou 330 mil novos carros", comparou, lamentando ainda a verdadeira carnificina no trânsito, que matou 2,7 mil pessoas, nos oito primeiros anos deste século, e feriu outras 60 mil, só na capital. Assim como Álvaro, ele pediu alternativas, como novas ciclovias, e exortou a todos a um pacto social por um trânsito melhor.
O secretário Ney Campello foi taxativo ao dizer que há "uma situação de caos na Região Metropolitana de Salvador". Evitando a discussão político-partidária conjuntural, o dirigente acusou o fato de "historicamente, a lógica desta cidade não estar no cidadão, mas nos interesses econômicos, principalmente da construção civil, transportes e turismo". Para ele, os interesses da iniciativa privada são legítimos, mas cabe ao poder público mediar os interesses de todos. Neste aspecto, ele defendeu um maior diálogo institucional para "definirmos qual cidade nós queremos."
Leonel Neto, no entanto, vê evolução qualitativa no transporte coletivo nos últimos anos e aposta na Rede Integrada de Transporte que vem sendo planejada. A respeito do corredor viário da Avenida Paralela, procurou ser diplomático em relação ao processo capitaneado pelo secretário estadual de Planejamento, Zezéu Ribeiro, para trazer alternativas ao Bus Rapide Transport (BRT). "Temos um documento assinado pelo governador Jaques Wagner e o prefeito João Henrique para a implantação do BRT e, se não houver uma alternativa melhor e viável, o cronograma será mantido."
Wagner Farjato considera o BRT um problema nacional. "Temos visto um enxame de BRT nas cidades que vão sediar a Copa", disse, revelando ser favorável ao transporte sobre trilho. Nesse aspecto, criticou o governo federal por ter criado, em 1993, a CBTU, com o objetivo de municipalizar os trens urbanos e, posteriormente, privatizar. No caso de Salvador, ele apresentou dados mostrando que os trens do subúrbio perderam passageiros desde a municipalização.
Jonas Dantas, presidente do Crea, disse que o caos no trânsito se deve ao fato de Salvador não ter alternativas modais. "Salvador, infelizmente, se transformou numa mercadoria", reclamou, pedindo que se estabeleça um sistema de controle social sobre as obras a serem realizadas, "para que não ocorra esse escândalo que é o metrô". Ele apontou como medidas necessárias desde a construção de simples passeios e ciclovias até a mudança da rodoviária e a melhoria da Estação da Lapa. O presidente do Gambá, Renato Cunha, por sua vez, pediu a mudança do aeroporto, já que as obras de ampliação prevêem invasão de área de proteção das dunas.
Também do Crea, Enéas de Almeida Filho mostrou preocupação com a construção da ponte de Itaparica. "O local onde vai ser construída precisa ser estudado", alertou. Para ele, se as oito pistas da ponte desembocarem em Salvador, como está sendo projetado para a Cidade Baixa, a cidade vai receber o impacto de todo o tráfego da BR-116 que se dirige ao litoral norte.
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